Numa caixa de rede azul turquesa, guardo os meus medos um a um...
Guardo pausadamente, sentindo alguma inquietação, pouco à vontade, mas sabendo que tenho de cumprir esta missão.
Vejo "O Grito" retratado, um vento frio, escuro e assombroso, a solidão e o medo...
Guardo-os meus medos, um a um na caixa...
Custa-me fechá-la, está cheia, cheia de dor que quer sair.
Mas uma rajada de vento aproxima-se e liberto as mãos para deixar a caixa voar para bem longe.
Respiro fundo e do meu lado esquerdo vejo um caminho de terra, que se dirige a uma clareira verdejante e dourada.
Borboletas brancas voam alegres e os veados surgem entre os arbustos, despercebidos da sua extraordinária beleza.
Sente-se uma clara felicidade e segurança no caminho.
Vejo-me, de vestido branco passeando contigo de mãos dadas, estamos tão felizes os dois.
Ouvem-se as vozes de crianças, são os nossos filhos que também caminham connosco, numa correria engraçada, apaixonados pela vida, inocentes e felizes.
Esta é a visão do caminho que posso percorrer e agora que vejo o futuro, preparo-me para dar o primeiro passo.
Estou vestida com o meu casaco verde, forrado com flores cor de rosa.
Inclino o meu peito para a frente, respiro fundo e dou o primeiro passo para me deixar-me fluir na aventura da vida...
Deslumbrada, comtemplo os pormenores, até que de repente, uma forte rajada de vento traz de novo a caixa azul dos medos.
Fico assustada, tento livrar-me dela, enxuto-a mas o vento rodopia-a de maneira a que retorne sempre a mim, aflita, começo a desesperar.
Mas súbitamente, lembro-me daquilo sempre soube e respiro fundo...
Sei que te tenho a meu lado.
Pego na caixa e enlaço-a numa fita cor de rosa, como se fosse um presente, com as duas mãos, liberto-a, num gesto harmonioso para que ela vá para onde pertence.
Um vulto azul levita num rasgão direito ao espaço e, lá no alto, acaba por colidir com uma estrela, na qual se some, deixando apenas um rasto pequeno de pózinhos de estrelas, formando depois um arco-íris.
Retomo o caminho, tranquila,de mãos dadas contigo.
Sei que há uma mensagem mágica guardada na clareira à nossa espera.
Um cavalo castanho, vem ao nosso encontro, e deixa-nos montá-lo.
Abraçada a ti, encosto a minha cabeça, sei que estou segura e protegida. Fecho os olhos para sentir ainda melhor o momento, sentir o teu cheiro, sentir a tua presença que é cada vez mais forte e certa em mim.
Chegados à clareira, somos impressionados pela imponência branca de uma fada magistosa.
Desmontamos do cavalo e de mãos dadas avançamos em silêncio para a Fada que se ergue no alto da clareira como um dislumbre.
Fascinados, mantemo-nos num respeitoso silêncio de prazer.
A fada inclina-se para a frente, e como que num sussurro, com as mãos em concha, junto à boca, solta notas musicais desenhadas que esvoaçoam em nossa direcção.
Boquiabertos, engolimos essas mesmas notas e os nossos corpos ganham uma vibração.
De mãos dadas, e em harmonia, regressamos ao nosso caminho original, onde se ouvem as vozes das nossas crianças brincando.
Inspiro, expiro, inspiro, expiro, para seguir as minhas pegadas do sonho.
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