domingo, 19 de outubro de 2008

O Pescador e a Pedra que era um Peixe.


Era uma vez, em tempos já distantes, um pescador bem conhecido e respeitado por todos os habitantes da sua aldeia e arredores.

Era um pescador destemido, que navegava sozinho à procura do melhor peixe.

Pescava só de noite.

Ele sentia pela brisa, e pelas estrelas do céu, o estado de graça do mar.

Compreendia melhor que ninguém o que cada maré trazia.

Era um pescador apaixonado, vivia só para o mar.

Não era homem de grandes palavras, mas era muito respeitado.

Ninguém se atrevia a duvidar das suas proezas, mas também ninguém tinha coragem de o acompanhar.

Secretamente consideravam-no louco o pescador.

Tinha um barquinho pequenino, nem duas pessoas cabiam lá como deve ser.

O barco fora por ele feito, à sua medida.

Não gostava de conversas, homem de poucas palavras, sentia-se bem apenas a pescar.

Estudava o olhar da lua e compreendia a linguagem do mar.

Era ousado e destemido, não parava para brincar.

Certo dia, feitas as suas contas, compreendeu que peixe graúdo aproximava-se . Sabia que este peixe era dele.

Estudou muito bem as possibilidades de o apanhar, que movimentos ele faria e por onde se deslocaria.

Todas estas informações eram-lhe dadas por instinto, pelo amor ao mar.

Já as más línguas diziam que ele tinha feito um pacto com o diabo, pois não era normal ser-se tão preciso a pescar.

O pescador não ligava a essas conversas, era de poucas falas e poucos sorrisos. Agora tinha uma missão: Apanhar o peixe graúdo que se avizinhava.



Ao contrário dos outros pescadores, este pescava de noite. De madrugada trazia o peixe, de manhã comprava o pão, bebia o seu copo de vinho e seguia para casa onde se estendia na sua cama sempre mal feita e descuidada.

Não adormecia logo, ficava a pensar no próximo peixe a pescar. É que este pescador não era um pescador qualquer, só pescava um peixe por dia, mas era sempre um peixe tão grande, tão grande que valia para a aldeia inteira. O peixe miúdo a ele pouco lhe dizia, nem o queria.

Enquanto estava deitado na sua cama, pensava e repensava na melhor forma de surpreender este novo peixe que se aproximava da costa, ele sentia-o à distância, sabia que não era um peixe qualquer, era um peixe especial e só ele é que o podia pescar.

Mas o mar que também prega as suas partidas, quis testar o pescador, pois o peixe novo que trazia não era para amador.

Tinha de se o querer a valer e provar o merecer...

O peixe novo era especial, pesava mais de dez toneladas, era forte e ágil, gritava vida e beleza, era um peixe tão grande e poderoso, tinha várias cores, olhos redondos gigantes, uma boca enorme, umas barbatanas esguias e flutuantes, brilhava como se tivesse tomado um banho de ouro.

Este filho do mar que se estava a aproximar, era um peixe de encantar, um verdadeiro orgullho de se admirar.

Mas o pescador quis ousar, sabia que aquele peixe era diferente, percebia a sua magia, mas não resistia, tinha de o apanhar para a aldeia toda o louvar.

Pois o pescador, que era de poucas falas, solitário e orgulhoso, por trás dessa fachada era também muito vaidoso.

Sabia-se que era pretensioso, por apanhar o que mais ninguém apanhava.

Desta vez, o pescador quis esmerar-se e a toda a aldeia contar o que iria pescar.

-"Espantem-se meus senhores e senhoras, pois o peixe mais incrível vou eu apanhar, o peixe mais bonito que já alguma vez sonharam alcançar, este peixe glorioso, filho do mar, vai a aldeia alimentar durante meses sem parar!".

Os aldeões, suspeitavam, alguns até se benziam, não que dele duvidassem mas temiam a desgraça das desgraças se o mar se enfurecesse, pois se o peixe era tão especial, talvez não se devesse a ele fazer mal.

O pescador fez as suas contas, contou as luas, analisou as marés, e na altura devida, pegou no seu barquinho e preparou-se para o desafio.

Entoou um cântico do mar, que ele fazia sempre como se estivesse a rezar, remou, remou, mais para a direita, um pouco mais para a frente, um pouco mais à direita, levemente à esquerda, seguiu um pouco mais em frente e parou.

Agora só lhe restava esperar, ele sabia que o peixe por ali ía passar.

Entoou mais um cântico, preparou o seu arpão, ele era ágil e eficiente, com um simples olhar, fatalizava a vida de qualquer peixe, o seu lance era certeiro e eficaz, o peixe não sofria e instântaneamente ali morria.

O momento aproximava-se, ele sentia na pele, a brisa roçava-lhe como um sinal, as estrelas sorriam-lhe, a lua trespaceira, escondia-se, e um circulo à volta dela se formava avisando o perigo que se avistava.

Mas o pescador ignorou os sinais, sabia que o perigo era iminente mas acreditava que ele o conseguia superar, bastava lançar o arpão para esta ânsia passar.

A adrenalina subia-lhe à cabeça, o coração batia mais forte, o momento derradeiro estava cada vez mais próximo, o peixe já se sentia por perto.

O pescador pôs-se em posição, levantou-se no barco, com a mão direita segurava o arpão em posição fatal, era uma questão de segundos para que orgulhosamente tivesse o peixe consigo, derramando o sangue nobre do mar. Seria a maior consquista, depois disto pensava reformar-se, partir para outro lugar...

A ondulação tornava-se, à medida que o peixe real se aproximava, cada vez mais forte, o barco tremia, mas isso não desmotivava o pescador, ele estava cada vez mais ansioso, mais cheio de vontade, já via a sua cauda gloriosa a emanar pelo mar acima, quase que saltando do barco, o pescador atira o seu arpão, quando para seu grande espanto, no momento crucial, o peixe deu um salto mortal, o mar irado, virou o barco ao pescador, as ondas agitaram-se enfurecidas, e ouviu-se uma voz profunda ecoando sobre o mar.

O pescador não percebendo o que se passava tentou agarrar o barco, mas sentia-se a ser puxado, o grito do peixe era agudo, o pescador não o queria perder e num esforço quase inútil de virar o barco viu algo de muito estranho acontecer.

O peixe real num salto virou pedra e ali imóvel ficou.

O pescador já sem forças, deixou o barco fugir e desmotivado deixou-se ir.

Pensava estar morto, pensava que aquele era o limiar...

Os seus olhos nunca avistaram tal fenómeno, entorpecido foi parar ao fundo do mar.

Como que num sonho percebeu onde falhara e porque é que sofria agora.

Desejou o que não devia, o que não lhe pertencia, o mar dera-lhe a glória devida mas ele a quis desmedida.

Quando acordou, estava no areal, como se tivessem passado dias, mas na verdade era apenas o amanhecer.

Ainda atordoado, abriu um olho de relance e viu que os aldeões se tinham reunido na praia, comtemplavam o mar muito espantados, nem percebiam que ele ali estava deitado.

Devagar levantou-se com cuidado e quando recuperou algumas forças, ainda molhado foi ter com um menino pequenino, de cabelos escuros e olhos pretos profundos, que segurava um pau e brincava com ele na areia.

Perguntou o que se passava com um gesto bruto, o menino não respondeu, baixou a cabeça, fez um circulo no areal, e depois, ergueu a cabeça e com o pau apontou para a sua direita em direccão ao mar, fixou o seu olhar e não fez mais nada.

O pescador acompanhou cada movimento do menino, observou-o atentamente, quando percebeu o que era apontado também fixou o olhar espantado.

O peixe era agora pedra, uma pedra que nunca ninguem tinha visto, a aldeia estava em alvoroço, que pescador mais pretencioso!

O pescador jurou para si que nunca mais iria ao mar navegar e que a partir de agora só pescava peixe miudo à beira mar.

A partir daí começou mais calmo, a dirigir seus cumprimentos aos aldeões, até seus hábitos mudou, mas nunca mais uma palavra pronunciou, o grito do peixe real, quando pelo pescador atacado, cortou-lhe a voz para sempre por castigo.

E a pedra peixe ali ficou para sempre à beira mar, onde o pescador a pudesse comtemplar sem jamais a tocar.

Os aldeões espalharam a notícia pelas aldeias vizinhas e a pedra fenomenal tornou-se um local de adoração.

Reza a lenda que a pedra vira peixe nas noites de lua cheia.

E que o pescador nunca mais saiu da beira mar ainda com esperanças de o conseguir pescar.




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