Nowhere Man
Senhor já de idade.
Olhar vago e vazio.
Usa um casaco encarnado.
Uma camisa aos xadrez encarnada e branca, calças creme e sapatos castanhos.
Usa uns suspensórios azuis.
A única cor que lhe dá vida é a do casaco de malha já gasta…
Tem pouco cabelo e o pouco que lhe resta é branco.
Tem a barba por fazer, picante.
Os olhos são esverdeados, o nariz é comprido e meio arredondado.
Anda de boca aberta.
Parece uma pessoa sofrida.
Caminha devagar, com o seu olhar distante fixo num horizonte perdido.
Nos dias de sol passeia na rua sem nenhuma direcção concreta.
Parece que perdeu algo que lhe era muito querido…
É um senhor muito sozinho.
Mas sabe-se que há uma vizinha que o ajuda, leva-lhe as refeições a casa e dá uma arrumadela ligeira.
A casa dele tem um cheiro muito próprio, não é muito arejada, a mobília é velha, tem algumas fotografias, já antigas e poeirentas.
Tem algumas revistas sobre a mesa, mas o senhor não lhes toca, é a vizinha que as deixa lá para ele se entreter, mas nada o parece mover.
A televisão também já mal funciona.
O único entretém do senhor em casa é olhar pela janela, como se esperasse por alguém ou por alguma coisa.
A comida já não tem sabor, come o que lhe põem na mesa, come sem apetite e prazer, come por dever.
Suspira profundamente, sente-se desgastado.
Parece ter uma relação de amor-ódio com Deus.
As suas recordações, o seu passado pesam-lhe na alma.
Nunca mais chega a hora desejada de partir.
O senhor quando caminha, com o seu olhar vago, parece que procura Deus, como se Ele o tivesse perdido de vista.
"Aqui estou eu, leva-me Senhor".
Já não tem cá a sua família, já pouco lhe faz sorrir…
Custa-lhe o acto de respirar, não porque esteja doente mas porque já o aborrece.
Em tempos distantes, este senhor solitário teve mais vida, caminhou de cabeça erguida, sonhou, viveu grandes paixões e aventuras. Teve amigos e sorria…
Onde param esses anos gloriosos? Onde estão essas pessoas que se cruzaram no seu caminho?...
Algo se perdeu, e o senhor nunca mais voltou a ser o mesmo.
Quando decide falar, quase que soluça com os seus suspiros e não termina as frases, perdendo-se novamente em alguma imagem perdida da memória.
Ora reza a Deus para que o leve, ora roga-lhe pragas por o não levar.
Está cansado, está farto, pesam-lhe os anos e a vida.
Todos os dias faz o mesmo, levanta-se cedo de casa e caminha na mesma rua, até ao jardim mais próximo.
Há dias em que não pára em lado nenhum, se não fosse a vizinha ninguém daria pela sua falta, ela é que pede sempre ao bombeiro que é seu amigo para procurar o senhor.
E depois de algumas voltas pela cidade, encontra-se sempre o senhor, ao pé do cemitério onde espera ser enterrado.
Uma coisa é certa, este senhor terá sorte um dia…
1 comentário:
Não percebo nada disto de blogs.
Tudo o que quero é abraçar-te muito.... minha querida, tenho muito orgulho em ti e muita pena de ás vezes estar tão longe.
Continua a escrever e sempre que puder virei dar-te um abraço e miminhos de que tanto gostas.
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