Com o devido tempo e paciência escreverei mais sobre estes felizes momentos que recordo, até porque escrevendo relembro-me dessas sensações que vivi.
Olho para trás com alguma nostalgia, alguma tristeza, alguma alegria.
Tenho saudades da criança que fui e tantas são as vezes que tenho vontade de abraçar a pequena Inês e dizer-lhe "Força minha querida, dá os teus pequenos passos de cada vez, cresce com a força natural que tu tens, ri-te como gostas, chora à vontade pequenita, brinca como só tu sabes, cria, inventa, sê essa criatura livre que nasceste para ser, não tenhas medo princesa, vai correr tudo bem."
Em algum momento fragilizei...
Tenho memória de quando tudo era novidade, de quando nada me assustava, era apenas curioso, lembro-me de ganhar os primeiros medos...
E como mudei de bebé para criança, a cor do cabelo de preto escuro ficou castanho claro, a cara bolachuda ficou mais esguia, os olhos redondos ficaram mais rasgados...
A voz estridente suavizou.
hehehehe!
Tem graça como sempre gostei da terra, no quintal brincávamos nos canteiros, eram florestas amazónicas, mundos perdidos.
Cada vez que íamos à praia recolhíamos pedras e não digo pequenas pedras, eram deveros calhaus, o carro voltava sempre mais pesado do Algarve.
Paus, canas, conchas e pedras, era um verdadeiro entretém para mim e para o meu irmão.
Lembro-me que gostava de me esconder.
Uma vez no Algarve abri um buraco nos arbustros e escondi-me lá com o mourafado, levámos para lá uns biscoitos de chocolate, entretanto a mãe dele chegou e ele saíu do esconderijo para lhe dar um beijinho, quando voltou eu já tinha comido os biscoitos todos!
Ele ficou furioso porque queria oferecer alguns à mãe.
Fiquei sem saber o que dizer, pensava que íamos ficar escondidos para sempre...hihihihi!
Não era só nos arbustros que me escondia, adorava esconder-me em casa dos meus avós, escondia-me atrás das cortinas, nos armários, debaixo das mesas... Era capaz de ficar horas escondida, sem fazer um barulho, adorava saber que ninguém me via e encontrava, adorava estar em silêncio na solidão.
Brincar, brincar era tão bom, inventava diálogos extensos com as minhas barbies e barriguitas, o que gostava mais nas bonecas eram os seus cabelos, brincava com as bonecas viradas de costas para ver os cabelos delas abanarem.
Retratava histórias que tinha ouvido, novelas que davam na televisão, coisas que tinham acontecido na escola...
Trazia giz da escola e escrevia nas paredes do meu quarto.
O meu quarto de encantar, parecia um sonho, com as paredes floridas ao de leve, em tons de cor de rosa, com prateleiras cheias de livros, bonecos por todo o lado, a cama de solteira da minha bisavó, onde a partir de uma certa idade já não cabiam os meus pés. :)
Fotografias a preto e branco do Jim Morrison e dos The Doors e Frases rebeldes, próprias da minha adolescência.
Adorava cantar pela rua fora, recitar poesia a quem quisesse ouvir, parar nas livrarias e ler os livros de rasgão para não ter de os comprar, uma vez que não tinha dinheiro.
No meu quarto, sossegada, acendia incenso, ligava o meu gira-discos da fisher-price, que recebi quando fiz 4 anos, e ouvia "The Celebration of The Lizard", sentada no chão, deixava-me fluir pela poesia musical e sonhava com a rebelião heróica do romantismo...
Quando havia manifestações que me interesassem participava, lembro-me tão bem de vestir-me de branco por Timor, apelar aos meus colegas e amigos para se manifestarem de branco, "Libertem Timor Lorosae".
Vestia largas calças à boca de sino, tinha o cabelo comprido e usava duas longas tranças.
Óculos de sol com aro redondo, malas de crochet, colares de missangas, flores na cabeça, assim me apresentava, era o que acreditava ser.
Ainda hoje sou, jovem, mas tão mais cansada....
A vida entretanto deu tantas voltas e, se já naquela altura me sentia incompreendida, hoje ainda menos me compreendo!...
Quis sossegar o meu espírito, pensei que se não desse tanto nas vistas, o protagonismo da minha própria vida se disipasse, mas de facto, não foi isso que aconteceu.
Continuei a ser actriz principal no palco da minha vida...
Quando o Bernardo partiu...
Perdi-me...
Mas essa história contarei numa outra altura...