sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O Caminho dos sonhos...

Numa caixa de rede azul turquesa, guardo os meus medos um a um...
Guardo pausadamente, sentindo alguma inquietação, pouco à vontade, mas sabendo que tenho de cumprir esta missão.
Vejo "O Grito" retratado, um vento frio, escuro e assombroso, a solidão e o medo...
Guardo-os meus medos, um a um na caixa...
Custa-me fechá-la, está cheia, cheia de dor que quer sair.
Mas uma rajada de vento aproxima-se e liberto as mãos para deixar a caixa voar para bem longe.
Respiro fundo e do meu lado esquerdo vejo um caminho de terra, que se dirige a uma clareira verdejante e dourada.
Borboletas brancas voam alegres e os veados surgem entre os arbustos, despercebidos da sua extraordinária beleza.
Sente-se uma clara felicidade e segurança no caminho.
Vejo-me, de vestido branco passeando contigo de mãos dadas, estamos tão felizes os dois.
Ouvem-se as vozes de crianças, são os nossos filhos que também caminham connosco, numa correria engraçada, apaixonados pela vida, inocentes e felizes.
Esta é a visão do caminho que posso percorrer e agora que vejo o futuro, preparo-me para dar o primeiro passo.
Estou vestida com o meu casaco verde, forrado com flores cor de rosa.
Inclino o meu peito para a frente, respiro fundo e dou o primeiro passo para me deixar-me fluir na aventura da vida...
Deslumbrada, comtemplo os pormenores, até que de repente, uma forte rajada de vento traz de novo a caixa azul dos medos.
Fico assustada, tento livrar-me dela, enxuto-a mas o vento rodopia-a de maneira a que retorne sempre a mim, aflita, começo a desesperar.
Mas súbitamente, lembro-me daquilo sempre soube e respiro fundo...
Sei que te tenho a meu lado.
Pego na caixa e enlaço-a numa fita cor de rosa, como se fosse um presente, com as duas mãos, liberto-a, num gesto harmonioso para que ela vá para onde pertence.
Um vulto azul levita num rasgão direito ao espaço e, lá no alto, acaba por colidir com uma estrela, na qual se some, deixando apenas um rasto pequeno de pózinhos de estrelas, formando depois um arco-íris.
Retomo o caminho, tranquila,de mãos dadas contigo.
Sei que há uma mensagem mágica guardada na clareira à nossa espera.
Um cavalo castanho, vem ao nosso encontro, e deixa-nos montá-lo.
Abraçada a ti, encosto a minha cabeça, sei que estou segura e protegida. Fecho os olhos para sentir ainda melhor o momento, sentir o teu cheiro, sentir a tua presença que é cada vez mais forte e certa em mim.
Chegados à clareira, somos impressionados pela imponência branca de uma fada magistosa.
Desmontamos do cavalo e de mãos dadas avançamos em silêncio para a Fada que se ergue no alto da clareira como um dislumbre.
Fascinados, mantemo-nos num respeitoso silêncio de prazer.
A fada inclina-se para a frente, e como que num sussurro, com as mãos em concha, junto à boca, solta notas musicais desenhadas que esvoaçoam em nossa direcção.
Boquiabertos, engolimos essas mesmas notas e os nossos corpos ganham uma vibração.
De mãos dadas, e em harmonia, regressamos ao nosso caminho original, onde se ouvem as vozes das nossas crianças brincando.
Inspiro, expiro, inspiro, expiro, para seguir as minhas pegadas do sonho.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Visualização da Montanha

A Montanha erguia-se imponentemente num suave branco de neve.
Eu estava próxima, na base, sentia respeito.
Tinha de a subir.
Olhei à volta para perceber como o iria fazer.
Vi o caminho e, ao vê-lo, percebi que estava acompanhada.
Não percebi quem eram as pessoas, mas íamos em excursão, com burros a carregar as nossas cargas.
Tinha de encontrar um objecto, podia ser uma pedra ou outro objecto qualquer.
Na minha mente, era uma pedra lisa.
Subi com tranquilidade, queria apreciar a beleza da montanha no seu espoente máximo, cada passo era dado com valor e sempre que podia comtemplava a vista que se me oferecia.
O final da tarde aproximava-se, estava a meio da montanha e ainda não tinha encontrado o meu objecto.
Deram-me três hipóteses: Voltar para trás, parar ou prosseguir caminho pela noite fora.
Parei, era o mais seguro.
Quando percebi que ía admirar o pôr do Sol naquele ponto da montanha, consciencializei-me de quem estava ao meu lado. Eras tu, meu ruivo das aldeias, da serra e do mar.
Estavas comigo afinal.
De mãos dadas observámos os últimos raios de sol luzirem sobre a montanha e a adormecerem sob o mar.
A noite chegou, dormimos aconchegados na nossa tenda, senti-me tão bem.
Ao acordar, pela manhã, percipitei-me para fora da tenda, junto à ravina.
Tinha acordado com um bater forte.
Era o meu coração rubi, que batia com a força do Amor lá fora.
Finalmente encontrara o meu objecto, que ao fim de contas já não era uma pedra lisa.
Apanhei-o do chão ainda frio da neve, e enquanto o segurava, com mais força e brilho ele batia.
Tu saiste da tenda ao meu encontro.
Tinha o coração nas minhas mãos.
Abraçaste-me e o meu coração voltou para mim.
Senti-me com mais força e vontade de passear pela montanha.
Agora já não procurava nada, estava contigo, de mãos dadas, decidimos dar o nosso passeio e aproveitar o dia.
Quando chegou a hora de despedir-me da montanha, sorri.
Agradeci a volta mágica ao meu Eu interior e nunca mais olhei da mesma maneira para a montanha...
:)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Actus, Parcus, Formatatus.

Um homem vestido de fato e gravata, encolhe-se dentro de uma caixa de cartão e cobre a sua cabeça com outra caixa.
Nasce assim o Homo Formatatus.
Ambas as caixas têm escrito várias perguntas e afirmações existencialistas.
Noutro plano, as três Parcas avançam em passos solenes e compenetrados no seu tear.
Permanecendo quietas com as suas funções.
A primeira Parca desenrola o fio da vida, a segunda mede-o e compõe o seu comprimento, a terceira decide quando tem de o cortar.
O Homo Formatatus é pontapeado levemente pela segunda Parca e em cada pontapé que leva, tira para fora da caixa uma pergunta que imediatamente amarrota e atira para a audiência.
Após alguns pontapés da vida e várias perguntas soltas, o Homo Formatatus, decide sair da sua caixinha, mas não o faz precipitadamente, é uma despedida sincera de um formato a que está habituado, os seus passos são tremidos mas determinados.
Já fora da caixa encontra um instrumento, esse instrumento intriga-o e seduz-lo.
Ele pega no instrumento atentamente num gesto ameno, e começa a tocar.
O ritmo pulsa-lhe nas veias, ele entusiasma-se e o som propaga-se com mais intensidade.
Quando a música atinge o seu climax...
A terceira Parca corta o fio.