terça-feira, 16 de junho de 2009

SaLpiCoS de CoR

A cada dia que passa reparo num pormenor diferente, uma flor nova que desabrochou, um arbusto escondido, os vários tons de verde sorridentes.
Os caminhos que percorro por estas estradas antigas fazem-me sentir parte de algo maior, parte integrante desta natureza assombrosa.
Fico extasiada e maravilhada com um sorriso de orelha a orelha que se mantém durante a viagem toda, viagem que faço quase todos os dias de minha casa para lá e de lá para minha casa...
Escolho o caminho mais longo, de preferência, porque sei que é o mais bonito, o menos stressante, o mais interessante...
Sigo calmamente cada curva, cada recta, cada subida e descida, cada contracurva apertada...
Sabe tão bem.
O sol espreita por entre as árvores com raios magníficos de luz que despertam sonhos de um mundo encantado onde há fadas e elfos e pequenos seres da natureza que são, na verdade, as dádivas secretas de Deus.
Sinto-me bem, gosto de ser parte desta energia natural do universo.
Gosto de sonhar com fadas e elfos sabendo que é fantasia...
Mas a verdadeira magia que me fascina são estes detalhes da natureza, ver todos os dias as árvores e as flores no seu ciclo de mutuação. Sei que elas são extraordinárias não para que alguém as possa apreciar e ver mas sim porque vieram ao mundo com a condição de serem sempre maravilhosas.
E o cheiro que emanam, os pinheiros bravos, os eucaliptos, as rosas, as margaridas e os malmequeres, as tulipas e as acácias entre tantos outros...
Magnificas...
Como é que eu poderia ir viver alguma vez para a cidade quando tenho tanto a descobrir no solo puro da terra?
Amo demais esta serra para a abandonar...
O ar que se respira é tão mais puro...
Não percebo as construções desvairadas de prédios de vários tamanhos e formas, sem respeito nenhum pelas paisagens e pelo bom gosto.
Dizem que estamos em crise, mas o que se vê mais são as obras.
Estranhas formas de pensar e encarar as situações...
Eu prefiro escutar a sabedoria das árvores, mil vezes, às palavras vãs de muitos homens.
Voltando às cores...
Os verdes das árvores, os azuis do céu e as cores variantes das flores, são para mim como os quadros impressionistas, parecem mesmo salpicos de cor!
Eu gosto da serra e dos caminhos que ela faz, gosto da paisagem que a serra aprecia do outro lado, os campos de cultivo e o azul do mar, as praias selvagens onde as ondas batem forte contra as rochas....
É curioso como a serra separa dois terrenos tão diferentes, de um lado há mística e natureza selvagem cheia de ritos e histórias, do outro a construção civil em grande peso, o consumo e o desbaste desnecessário, paisagem mais árida...
Tem algum encanto mas a sensação de nostalgia invade-me sempre que por esse lado passo, porque é onde durmo e sei que se está a transformar, a cada dia que passa, num circo de monstruosidades consumistas, tudo em prol da inovação e da aparente aparência.
Ainda tenho o Guinxo, que também, muitas vezes me encanta com os tons de azul claro e bege, as famosas dunas onde já acampei, fiz amor e sonhei.
Quantas foram as noites em que fui para lá apreciar o mar?
Ainda ontem lá estive, e estava uma noite formidável.
Apetece-me vestir uma saia de roda, pôr uma echarpe e dançar descalça pelas dunas abaixo e depois enrolar-me na areia e descer até ao mar, dar pulos na água, e depois mergulhar e nadar, nadar, nadar...
Até emergir noutro mundo paralelo, mundo onde os cavalos marinhos falam connosco e nos indicam o caminho para a Antlântida.
Mundo de luz iminente, onde a música que se dança é a música das árvores e das ondas do mar...
Como me embalo nesses sons.
Será que já se criou alguma dança assim?
Há ondulações do corpo e o corpo é feito para estar em movimento, aprendi que se ficar de pé sossegada, discretamente o corpo manifesta-se com pequenas oscilações criando um contínuo lento movimento.
Se prestarmos mais atenção, apercebemos-nos que ainda não estivemos um segundo parados mas sim sempre em movimento e que se vincarmos esses movimentos, temos uma dança!
Como é lindo o nosso corpo, como é linda a natureza pura que há em nós.
Basta SER...
Ser na essência, escutar o corpo, escutar o bater do coração, respeitar o corpo, respeitar o coração, SER.
Deixo o fazer por uns instantes que se demoram por muito tempo para SER sem pudores, sem inibições, SOU.
Tal como as árvores são, tal como o mar, as flores, o vento, os animais, eles SÃO e não se queixam e não mudam de opinião e não andam a ver se as pessoas os apreciam para SEREM, porque se bastam a si próprios. Não precisam de aprovação para SEREM. SÃO.
Por outro lado o Ser que há em nós procura nos outros o reflexo de SI mesmo.
É dificil procurar fora o que há dentro de nós.
Poderão dizer-me que o que nos distingue dos animais e das árvores e restante natureza é esta magnifica massa cinzenta que temos no nosso cérebro e que nos faz pensar.
Mas não sejamos tão ingratos, essa ferramenta fabulosa que temos proporciona-nos a vantagem da contemplação.
Podemos abraçar-nos e construir algo melhor, a favor da natureza, pela natureza, para estarmos em harmonia connosco próprios.
Temos tanto para Dar mas parece que a maior preocupação geral é o que se irá receber, quando o DAR consiste em Receber de nós para nós a dádiva do DAR.
Salpicos de cor, é assim que vejo o mundo, utópicamente cheio de LUZ que vem de SI e se Basta a Si próprio, porque não se destroi nem se corrompe pelo que é exterior, o que nem é dos outros nem de ninguém...
É de si para si, porque quanto mais temos de nós menos precisamos dos outros e o que vem dos outros para nós torna-se uma dádiva, um presente, um luxo, uma benção.
Não é garantido, não é obrigatório, não é necessário.
É.
Algo que se ofereceu pelo puro prazer de DAr sem intenção nenhuma de receber de volta igual ou maior.
Salpicos de Cor na minha vida, bem hajam hoje e sempre.
Obrigada.

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